Maio/24
A minha primeira vinda a esta cidade foi há exatos 24 anos, quando foi inaugurada a estação das docas, no ano 2000. Inesquecível pois eu em uma viagem de trabalho, com apenas 18 anos, pude conhecer aquele lugar mágico através de um belenense que era funcionário público e havia participado do projeto da construção e estava orgulhoso pela conquista da cidade. Hoje vejo a dimensão que tomou este local. O que era um espaço com poucos restaurantes agora oferece aos turistas e população local diversas opções de lazer (teatro e passeio de barco) e cultura (além da gastronomia típica paraense, ali você encontra o tradicional sorvete Cairu, com dezenas de sabores pitorescos. Além disso há diversas lojinhas onde se pode comprar muito do artesanato local). O lugar é romântico, disse minha amiga Asia. De fato, o sol se pondo por detrás do rio sem fim, a música ao vivo tocando o melhor da nossa MPB, os conjuntos de mesinhas e cadeiras todos virados para admirar o espetáculo da natureza. A arquitetura dá um toque especial ao complexo pois foi construído onde antes ficava o antigo porto de Belém utilizando galpões de ferro inglês do século XIX. Enfim, trata-se de um local imperdível, seja a trabalho, para namorar, com as crianças ou amigos.




Diferentemente de muitos locais que visitamos, Belém nunca mais sai da sua memória. Muito além dos espaços físicos, dos grandes edifícios históricos, monumentos e praças, quando nos aproximávamos da cidade e fui buscar pelos principais pontos turísticos e li sobre o mercado ver o peso já me lembrei dos sabores, dos cheiros, do calor, do rio, do barulho, dos olhares da gente local, do carinho e paciência com o turista que nada, nada mesmo conhece do Norte…
Já na minha primeira visita provei tudo do que para alguns é aventurar-se na culinária local, como maniçoba, pato no tucupi, tacacá, vatapá paraense. Milhares de frutas e claro, os sorvetes. É difícil depois se lembrar de cada um, porque Belém te oferece um novo mundo de sabores e cheiros que, na minha opinião, somente se compararão à Índia.

Da minha segunda visita à Belém em 2015 me marcou muito a visita ao Forte e a casa das 11 janelas. Uma área tão calma e ao mesmo tempo, talvez pela imponência do rio a sua frente, uma área também de muita reflexão. E justo nesta última visita, logo ao chegarmos leio um grande cartaz escrito “Não estuprarás”. Uau, que chocante e difícil ler isso. Demorei um pouco para digerir, pensei na impressão que isso teria aos olhos de meus colegas dos EUA, uma delas pela primeira vez na cidade. Mas em pouco tempo estava convencida de que era isso, uma grande chamada a intolerância a algo que deveria ser obvio, mas por qualquer razão, para alguns não é.



Inclusive dessa vez fomos caminhando do mercado ver o peso até o forte e como a única brasileira no grupo me senti responsável pela segurança de todos, e se me perguntarem, eu não repetiria o trajeto com eles. Mas se não repetiria o trajeto com eles, por que o faria sozinha? Enfim, o risco existe em Belém. Seja de violência física, assalto e o mais provável o risco de ser incomodado por pedintes ou no mínimo se incomodar ao ver moradores de rua em situação precária, mas enfim, essa não é a realidade também em outras capitais no Brasil e no mundo? De qualquer forma é muito rápido saber onde é e não é apropriado caminhar, todos na cidade tem os pontos vulneráveis bem mapeados e a boa notícia é que todos dizem que a “coisa” está melhorando.
Da minha terceira visita à Belém em 2022, da memória também nunca saiu a visita ao Mangal das Garças. O que são aquelas graciosas garças livres aos montes, misturando-se aos flamingos, guarás e outras aves… aquelas fontes, lagos…aquela paz… E com as crianças… ouvi meu menino dizer, “eu nunca esquecerei desse lugar”. Fato, é um passeio inesquecível. O que ele mais gostou? Do borboletário…






E em minha recente visita, ao conversar com minha filha que tinha apenas 2 anos quando veio pra cá, ela justamente se lembrou do borboletário. Eu e Dimitri lembramos do pato que mergulhava e reaparecia depois de alguns minutos em algum lugar do lago, e aquilo virou a brincadeira “onde esta o pato”.
Nesta última visita fiquei feliz em conhecer o centro de pesquisas do Museu Goeldi. Trata-se de uma entidade publica, que reporta ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e que possui o maior acervo de história natural do Brasil.
Conhecemos a área de arqueologia, que apresenta muitos materiais em cerâmica encontrados em diversas regiões amazônicas. São feitos projetos de réplicas de milhares de achados originais que são expostos em diversos museus e exposições pelo mundo. Atualmente, o acervo da Reserva Técnica de Arqueologia do Museu Goeldi ultrapassa dois milhões de itens.
No restaurante Ver-o-açai havia uma linda decoração e lá, um gentil garçom explicou ao Dimitri sobre a “magia “ das poções e contou a ele que no mercado ver o peso era possível encontrar essas poções!







Já no mercado Dimitri encontrou uma poção boa porque disse que as vezes a amiga Julia não queria brincar com ele… e a poção era “faz querer quem não me quer”.
Mas acabou optando pela: “fazer ir mais longe” que atendia ao seu maior objetivo que era voar. Ele realmente queria, chateou quando não voou de fato, mas ele e a irmã se divertiram ao tentar.
Já a Natasha não teve dúvidas, ela quis a poção do agarradinho e diariamente aplicamos ambas as poções nos dois e então todos os dias fomos cada vez mais longe e muito agarradinhos.
Refletindo sobre isso nessa minha ida mais recente, Dimitri percebeu quão antagônicas eram as duas poções. Uma os separava e a outra os juntava.
Os paraenses que conheci levam bem a sério as poções, ervas e por isso mesmo uma grande parte do mercado é destinado a essas lojas.
Num sábado de manhã, fiquei bem surpresa com a quantidade de pescadores limpando os peixes na orla próxima ao mercado, um ambiente barulhento, sujo, fedido que contrasta com a beleza do rio, a riqueza do alimento que dali vai direto pra centenas de famílias simples que frequentam o mercado.
A área dos artesanatos é muito tentadora. Aliás, eu que não sou das compras me rendo a arte amazônica. Não teve uma única vez que aqui estive que algo não tenha levado. E tudo que daqui veio é muito valioso para mim.
E o que muito me surpreendeu na minha primeira ida porque estava acompanhada de uma pessoa local foi a parte das frutas. Sem dúvidas a melhor experiência é estar com alguém que pode ir apresentando cada uma, que conheça ou tenha liberdade pra pedir aos vendedores para experimentar. Das outras vezes que estive aqui, sozinha ou com outros turistas, não me senti a vontade para “atrapalhar” o trabalho deles para provar algo, ou mesmo perguntar o que é. De qualquer forma, super recomendo ao menos passar por ali. Apesar da tentação de fotografar e/ou filmar tudo, vale tomar cuidado com furtos.
Ilha do combu








Da primeira vez em jan/22, almoçamos no Saldosa Maloca que tinha vista pra Belém, já na segunda comemos no que nosso guia disse que seria o melhor restaurante da Ilha, chamado Chalé da Ilha, e finalmente provei peixe com açaí e farinha de tapioca. Prato típico por aqui. Não achei delicioso, mas ok. Entendo que o açaí assim salgado funciona mesmo mais como um complemento, muito saudável e por ser barato por aqui, bastante utilizado pela culinária do dia a dia. Aliás em uma das reuniões fiquei feliz em saber que a Embrapa tem feito um ótimo trabalho para a profissionalização do cultivo do açaí. Realmente um alimento potente e que chega em todas as partes do mundo. Assistimos a colheita que basicamente é feita escalando a palmeira até quase o topo. Um trabalho artesanal, de força e coragem, que não falta ao povo daqui, até mesmo para senhores de 82 anos (ver vídeo abaixo).









Hoje em dia, cerca de 200 famílias vivem na ilha do Combu, sendo que cada uma delas possui de seis a 10 integrantes. A maioria vive do açaí, buriti ou colheita de outras ervas e mencionaram fornecer pra Natura. Ao mesmo tempo, muitos jovens moradores conseguem ir para Belém estudar. Nosso guia mencionou que sua esposa estava se formando em biomedicina. Ele também nos contou que há barcos de lixo, barcos escolares, mas que algumas crianças vivem distantes da rota e ele busca 15 crianças todos os dias as 4:30 da manhã para levar para a escola em Belém. Mencionou que com a Cop30, que os valores dos terrenos na ilha subiram muito, que vê como inevitável o desenvolvimento e modernização da região.
Existem 3 igrejas – pelo que entendi todas são evangélicas, e percebi esse choque entre crenças indígenas e dessas igrejas mais recentes. De um lado alguns criticam e desdenham enquanto outros querem e buscam preservar a cultura e tradições antigas dos ancestrais indígenas.
Nas duas visitas, passamos pela loja da Dona Nena, mulher empreendedora que criou a marca Filha do Combu. Utiliza apenas 2 ingredientes em seus chocolates: cacau e açúcar orgânico. Ao chegar na loja pode-se experimentar as diversas opções desde 45% cacau até 100%. Outras com castanha de Pará, etc. O cacau é colhido ali e assim como toda a produção dos chocolates, pode ser visto por qualquer visitante. Achei há pouco na internet, e vocês terão a noção do nível de profissionalização dessa produção, também através dessa plataforma de compras. Não são chocolates baratos, mas considerando a qualidade e o impacto direto na população ribeirinha, vale a pena. https://filhadocombu.com.br/
Visitamos a base do projeto Ygara, liderados pelo casal Iracema e Gerson, onde escolhi para as crianças barquinhos de buriti e acompanhamos também o tradicional banho de ervas ali oferecido. Gostei muito das bonecas de patchouli com cheiro bem especial e levei algumas para a escola da Natasha. Ali, pela primeira vez provei o suco de cacau, sem açúcar, e delicioso. Desejo que essa maravilha possa ser mais difundida para chegar a mais pessoas. Pelo que entendi não é muito fácil fazer, mas vi que tem algumas receitas na internet e vou tentar fazer em casa!
Fiquei surpresa e até envergonhada por ser brasileira e desconhecer tanto nossa cultura. Círio de Nazaré, celebração anual que desde 1793 acontece em outubro e tem dimensões a nível carnaval em Salvador (2 milhões de pessoas em uma só manhã) e seu objetivo é a devoção à Nossa Senhora de Nazaré. Trata-se do maior evento católico no Brasil. Para se ter uma ideia, nos primeiros dias de outubro – entre 3 e 12, próximos à celebração de Nossa Senhora Aparecida, a cidade de Aparecida recebeu cerca de (apenas se compararmos com Belém) 300 mil devotos.
Pela primeira vez, agora em minha última visita em maio/24 visitei o teatro da paz e tive a sorte não só de assistir a peça Kafka e a boneca viajante como de ganhar o ingresso. Cheguei faltando 1 minuto para começar, entrei na fila e um senhor veio me oferecer pois tinha ingressos sobrando. Pela primeira vez na vida me sentei nesse tipo de camarote, que de acordo com um funcionário, quando projetado o teatro, os camarotes tinham a função de fazer pessoas importantes serem vistas. Gostei da experiência, em especial porque fiquei sozinha e a visão foi perfeita. Também recomendo a peça que conta a história dos últimos meses de vida de Franz Kafka.




Uma coisa bem diferente em Belém do que estou acostumada em São Paulo ou mesmo em New Haven é o clima. Além da umidade do ar ser bem maior, tem as chuvas torrenciais … No sábado eu e minha colega Asia entramos num estúdio de yoga num dia de sol e calor. Bem no meio da aula deu uma forte chuva. Nós ficamos impressionadas porque a sala onde estávamos dava numa área aberta e o som forte invadia o espaço a ponto de termos dificuldades de ouvir a professora, um funcionário secava a beirada da sala com rodo e pano… mas além dele nenhum dos outros 15 alunos pareceu se incomodar ou mesmo se impressionar com tal fato. Poucos minutos depois nossa aula terminou, saímos revigoradas, olhamos assustadas ao ver o céu limpo e ensolarado, nos questionamos sobre o que havia acontecido, parecia mágica, mas restavam vestígios no solo úmido e a memória que certamente nenhuma de nós esqueceremos.
Refleti que minhas visitas à essa cidade estão sempre marcadas por grandes inaugurações ou melhorias. Primeira vez estação das docas, na segunda foi inauguração da casa das onze janelas e mangal das garças, a terceira a ilha do combu tinha virado uma atração turística e haviam inaugurado o parque do futuro, e desta vez, nada pronto, mas muitas, muitas promessas… Minha visita a Belém dessa vez já é resultado dessa conquista para a cidade que é sediar a Cop30, que acontecerá na cidade em novembro de 2025 com o slogan COP da Floresta. Sediar um evento como esse não é para qualquer um. São milhares de pessoas, centenas de chefes de estado…
Os impactos de ser escolhida como sede da maior conferência mundial sobre mudanças climáticas são sentidos logo ao chegar na cidade com os comentários do taxista, outdoors e pela movimentação intensa das obras, dentre elas a expansão da estação das docas e construção do parque da cidade, local que receberá os principais eventos da Cop30 com estrutura de 500mil m2. Além disso estão sendo licitadas obras de saneamento (dados de 2021 do IBGE mostram que apenas 17,12% da população da cidade tem acesso aos serviços de esgoto).
Desejo que este grande evento traga prosperidade e já sei que em minha próxima visita, terei o prazer de seguir acompanhando o desenvolvimento dessa linda cidade.
