Homenagem à Zuppy (de 10/agosto/11 a 28/agosto/21)

Homenagem à Zuppy do nosso amigo e artista Rodrigo

São tantos detalhes, nesta manhã, que finalmente observo e sinto. Um sorriso sem forma, movimentos assimétricos – quase um rebolado, um suave uivado – um chamado pra sair da cama, como quem diz, vem, vem brincar! Vem viver. Viro na cama, ainda sonolenta, sinto aquele cheirinho de bicho do mato, de amor, de afeto, cheiro meu, algo de mim, que mais perto chega chegando, e logo me dá um beijo de bom dia. Assim desperto, sorrindo, e logo retribuo com uma bela mordida no focinho e muitos carinhos nas bochechas magras porém suculentas. Não se passaram nem 10 segundos e lá se foi. Como um anjo veio apenas avisar que a vida é bela, que o sol já raiou, que há motivos pra viver e ser feliz.
Me levanto, ainda muito triste com os acontecimentos de ontem e o abraço nas crianças parecem vazios, todos estamos ainda incompletos. A festa da manhã neste quarto hoje não aconteceu , o caos de um rabo ventilador derrubando brinquedos…patas pisoteando roupas e pequenas tralhas espalhadas, hoje não tem..
O sofá da sala ainda tem seu cheiro, seus pelos, a marca de sua pequena existência, tão profunda, tão amorosa, tão marcante. Como posso ver esse lugar na sala e saber que não teremos mais ali aquele corpinho peludo, pretinho, com a ponta do rabo branca, olhinhos já turvos pelos seus 10 anos, dois dentinhos de baixo podres mas os restantes tão branquinhos, patinhas cruzadas como uma donzela mas cotovelo cascudo como uma trabalhadora que sempre foi, disposta, firme, altiva. Sempre atenta a uma bolinha, um pauzinho, ou até mesmo uma pinha.
Na cozinha sua água, sua comida. Penso nos banhos, nos cuidados tantos, na troca de carinho. Nos olhares, no companheirismo. Lá fora são tantos momentos com as crianças, na garagem seu buraquinho do descanso.
Livre, uma pessoa que não fala, sempre foi a nossa pequena. Autônoma. Nunca precisou de coleira, sempre soube pra onde ir ou ficar. É difícil entender sua partida assim
Nesse mês completou 10 aninhos, foi uma festa, ganhou biscoitos, bifinhos, ossinhos, coleira nova e tudo. Mas isso não a importava, só valia mesmo os passeios e seu trabalho de ir buscar o que quer que alguém jogasse. Carinho não demandava muito, até fugia se tinha muito. Queria executar sua missão, de sair pelo mundo, de ser de todos, e certamente ela está e é lembrava em mais de 1000 álbuns de fotografia pelo mundo. Quem um dia conheceu a Zuppy nunca mais se esquece.
Nos esperava enquanto almoçávamos em restaurantes de estrada, de cidades, no Brasil e fora. Nos acompanhava a pé, de carro, e até de avião.
Recebeu seus dois irmãos humanos e depois o gato, coelho e galinhas. Foi aluna e professora na nossa escola Casa da Imaginação.
Sempre foi nossa estrela, brilhava mais que toda a família junta. É difícil imaginar nossas aventuras sem ela de Norte à Sul do Brasil, e até EUA quando estudei fora… e que alegria quando ela chegou depois que passei 1 mês lá sem ela. Minha companheira me esperava acabar as aulas, adorava correr na neve e apostava corrida com os carros na nossa rua. Que energia, nessa época ela tinha apenas 3 aninhos.
Em nossa primeira viagem após as vacinas, fomos pra Tiradentes e a pobrezinha foi daqui até lá sentindo mal no meu colo. Lá se perdeu, e já quando tínhamos dado por certo que não mais a encontraríamos e retornamos pra pousada que apenas tínhamos passado pra deixar as malas, ali estava ela. Deitadinha na porta do nosso chalé. Depois disso, sabia que a Zuppy era e deveria sempre ser livre. Nunca mais usamos uma guia com ela. Após essa viagem inaugural, nunca mais ela se perdeu ou passou mal. Formamos uma família, eu Mauricio e Zuppy. Foi o presente mais lindo que havia ganhado na vida até o nascimento do nosso primeiro filho Dimitri e depois a Natasha.
Com um bebezinho recém nascido chegando em casa, muitos cachorros perdem atenção e privilégios. Com a Zuppy foi diferente, ela aproveitou minha atenção desviada e foi ganhando privilégios na casa. Sua cama oficial na lavanderia foi sendo abandonada e o cantinho do sofá da sala virou sua cama. E se alguém se sentasse naquele lugar, ela ficava com aquele olhar de coitada pedindo licença. E se estivesse dormindo e alguém se mexesse no sofá, já resmungava.
Mais recentemente esses resmungos foram crescendo, já uma senhora, queria impor suas vontades e limites, Natashinha sabia bem quando a Zuppy queria ficar sozinha, ou estava mal humorada. As vezes, mesmo sabendo, ela irritava a Zuppy, que se limitava a ameaçar morder e depois saia latindo e resgungando…
Também era engraçado ver como sempre que podia dava atenção e até mesmo ficava deitada próxima a outras pessoas, figurava sempre como a coitada abandonada. Depois de algum tempo, quando chamávamos, ela era a primeira a entrar no carro. Em casa era igual, implorava pra qualquer estranho ou convidado que brincasse com ela, mas depois que ela começava a brincar ficava maluca e nunca mais queria parar. Nas festas tinha até que prender um período senão no dia seguinte ela não conseguia nem andar.
Ela não podia mesmo envelhecer. Ela foi embora bem quando nessa nossa última viagem comentei com Mauricio que talvez ela não pudesse nos acompanhar mais em viagens muito longas. Bem mais cansada, se contentava com um passeio por dia. As vezes tinha que parar pra tirar um descanso e voltávamos para esperar. Os resmungos e latidos foram aumentando. Minha sururu queria dormir mais e mais. Vendo os sinais, eu expliquei pras crianças que ela estava ficando velhinha. E cuidamos muito dessa velhinha, que nem nunca nos deu trabalho. Só demos muito amor, penteamos todos os dias, banho toda semana dado por nós mesmos, com muitos beijos e abraços. Curtimos essa vida de Zuppy intensamente, cada momento possível.
Nessa manhã cinza, nossa vida perdeu um raio de luz. Observo tudo outra vez, relembro mais um pouco, e choro.

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